quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Cena Independente e Mainstream: planetas diferentes!


Caro Álvaro Pereira Júnior, não duvide: tenho uma discussão ainda mais importante para propor!

Li atentamente seu artigo na Folha de São Paulo, não apenas por ser mais um operário da cultura que atua no Sesc, por ter crescido no circuito independente de música e ser um militante da área cultural. Mais ainda por prazer em mergulhar na reflexão sobre a realidade em que vivemos, como cidadão, produtor, jornalista, músico, ou seja lá o módulo que eu possa representar, ganhando ou não para isso.

Chama atenção em seu texto, primeiramente, o tom de desconfiança sobre a credibilidade desses artistas da “nova mpb que vivem graças a programação cultural dos Sescs”, comparando-os com outros artistas do mesmo gênero como referência de afirmação e crítica. Questionar o valor artístico de um profissional da cultura apenas por não ter um público devidamente interessado em suas obras, disposto a pagar valores de ingressos absurdos, é uma visão brutalmente limitada. Na contramão da arte, como princípio.

A expressão de um artista jamais pode ser dimensionada pelo seu cachê ou apelo de público. Existem inúmeros exemplos de músicos, anônimos e ídolos, que viveram e morreram na miséria, se apresentaram em pequenos shows e produziram obras que valem muito mais do que a Beyoncé vai ganhar de cachê durante toda a vida, em seus shows superlotados.

No mais, a imensa maioria dos artistas que se apresentam no Sesc possuem uma carreira na cena independente, com iniciativas coletivas, em rede, trilhada ainda com o apoio de editais, apresentações em equipamentos culturais, públicos e privados, aulas e workshops em instituições diversas. Não começam e nem acabam, apenas continuam a existir no Sesc.

Outro ponto que preocupa é sua ironia com relação a mídia independente. Colocando jornalistas e críticos como meros bajuladores de amigos. Essa analogia evidencia o seu completo desconhecimento e desprezo pela cena e mídia independente, bem como, sobre a representatividade desses setores na sociedade atual.

Seguindo, tenho críticas ainda mais profundas sobre a instituição, no entanto acredito que o Sesc não é a causa dos problemas, mas sim, consequência. O mercado cultural se apresenta tão injusto e cruel quanto o mercado financeiro, há décadas. Os proprietários criam as casas para obter lucro, não para promover cultura. Os maiores prejudicados nesse processo são os artistas que você questiona. Quem teve a experiência de apresentar seu trabalho nas principais casas de São Paulo e ser refém da política dos bares e produtores, vítimas do Sesc, tem outro ponto de vista. O cachê por músico segue a média de R$300,00, há poucas exceções. Quase não há espaços para música autoral. Em alguns locais a banda tem que lotar a casa para receber entre 10% e 15% da bilheteria. Enquanto vendem ingressos, bebidas, lanches e serviços superfaturados, os proprietários pagam uma miséria aos funcionários e artistas, muitas vezes burlam a fiscalização sanitária, patrimonial ou de segurança. Eles choram, mas nunca quebram!

Quando avaliamos a aplicação da verba pública, a situação é ainda pior, principalmente em cidades do interior do país. Pode-se afirmar de forma grosseira que 70% do dinheiro das Secretarias, Diretorias ou Subdivisões de Cultura é aplicado em grandes shows e rodeios (o que equivale a um ou dois grandes shows no ano). Os outros 30% são investidos para produzir um factoide do modelo de carnaval do Rio de Janeiro e Salvador. Os municípios apenas pagam a folha de pagamento dos funcionários da Cultura e a manutenção de atividades que atendam minimamente suas respectivas populações. Os governos ainda congelam a utilização de parte da verba do setor para virar superávit e remanejar para outra área no próximo ano, pois se faltar Cultura ninguém percebe.

Portanto, sugiro outras questões para reflexão: por que nenhuma das emissoras de televisão com concessão pública possui um programa como o elogiado “A Fábrica do Som”, não seria um dever? Por que não há canais abertos de televisão comunitária para divulgação e visibilidade de trabalhos artísticos independentes, que fortaleçam a cena? Por que a verba da Cultura das cidades, estados e federação não chega a 1% do orçamento previsto para o ano? Por que esse dinheiro é ainda desviado e tão mal aplicado?

Por fim, você apresentou apenas uma tese, pouco fundamentada e limitada à realidade de uma capital, onde há praticamente um Sesc em cada estação do metrô. Eu ofereço uma antítese, pela experiência vivida nos últimos 15 anos país a fora, propondo mais perguntas do que respostas. A síntese é que neste sábado eu saio de casa com meu violão para tocar em um bar qualquer, no interior de São Paulo (o Sesc mais próximo fica a 40Km). Volto para casa com menos de R$300,00. Nessa noite, haverá apenas mais duas ou três atrações culturais rolando na cidade, privadas, que privilegiam o mesmo apelo de público da mídia convencional. Deixo uma última questão para você refletir: além de minha, a culpa é de quem?

sábado, 6 de setembro de 2014

Prefeitura de São Roque/SP lança edital para incentivar projetos culturais e artísticos



A partir de 08 de setembro de 2014 a Prefeitura de São Roque abre o período de inscrições para o primeiro edital do Fundo Municipal de Cultura. A proposta é incentivar ações de artistas, pesquisadores e produtores da cidade através de uma concorrência pública que irá selecionar os projetos mais qualificados.

As regras para participar do processo de seleção foram estabelecidas no Edital 001/2014, disponível para retirada na Divisão de Cultura, localizada no CEC Brasital (Av. Aracaí, 250 – Vila Aguiar) ou no site da Prefeitura Municipal – www.saoroque.sp.gov.br.

Cada projeto poderá ser inscrito em apenas uma das categorias previstas: projetos com custo total de até R$7.000,00 (sete mil reais) e projetos com custo total de até R$15.000,00 (quinze mil reais). Os proponentes poderão ser pessoas físicas ou jurídicas, tendo que comprovar atuação no segmento que solicitam o incentivo e residência no município de São Roque há pelo menos 2 (dois) anos.

A seleção e aprovação dos projetos será realizada pelo Conselho Municipal de Cultura e pareceristas contratados, seguindo os critérios estabelecidos no respectivo edital. Serão privilegiados projetos e ações nos segmentos de teatro, dança, música, literatura, circo, artes visuais, pesquisa, entre outros previstos na Lei nº 4.084, de 14 de Outubro de 2013, que corresponde à criação do Fundo Municipal de Cultura (é possível acessar a mesma no site da Câmara Municipal – www.camarasaoroque.sp.gov.br).

A verba total de apoio aos projetos será de aproximadamente 300 mil reais. “Acreditamos que esse edital será um marco histórico para a produção cultural e artística na cidade. O Conselho Municipal de Cultura agradece ao Prefeito Daniel pelo compromisso firmado ainda no período de campanha e convida toda a classe artística, comunidades tradicionais e a população para participar desse processo, seja inscrevendo projetos, divulgando para amigos e familiares ou prestigiando as atividades que serão contempladas”.

Dia 22 de setembro, às 19h, no CEC Brasital, o Fórum Permanente de Cultura irá realizar uma reunião extraordinária para esclarecer as dúvidas de artistas e produtores que pretendem apresentar projetos.

sábado, 2 de agosto de 2014

Con-Tradições

fonte - www.diariosorocaba.com.br
Como entrar nesse debate, de leve ou de sola? Apresentar as versões ou defender de forma apaixonada uma causa? No caso da Entrada dos Carros de Lenha e da presença dos carros de boi nas Festas de Agosto de São Roque, prefiro apenas subir no muro com algumas questões, visto que há alguns dias observo pela internet e ruas da cidade uma polarização do debate, entre os que são a favor e os contrários a presença dos animais no desfile. Me incomoda, o silêncio.


Nas mídias antissociais meia dúzia de ativistas convocam protestos pela saúde e integridade dos animais. Pessoas alheias comentam, curtem e compartilham. Do outro lado, no telefone sem fio, os boiadeiros alegam que não teriam mesmo como vir e que os bois são tratados melhor que muita gente. Os festeiros comentam sobre a burocracia na Prefeitura, custos, enfim, se caminharmos por aí daremos sempre na boataria da mesma praça.


Ao abrir o foco, ampliar a visão de modo que a realidade pareça uma paisagem, é possível exercitar com mais profundidade a reflexão sobre o tema. De cara, é ponto facultativo afirmar que não haverá consenso. No entanto, deve prevalecer como se trata a discussão e como se dão os argumentos na mídia e na sociedade local.


Se pensarmos no conceito de patrimônio cultural, de códigos comuns entre grupos e comunidades urbanas ou tradicionais, tudo ganha e perde sentido. Afinal, quem deve ou pode afirmar quais tradições devem ser mantidas ou descartadas? Devido sua crença, valor, ideal, uma tradição, ou parte dela, deve ser eliminada por conter partes impróprias à sua cultura? Vale a pena lutar por uma tradição, seja ela qual for? Ou ainda, tantas outras...


Caminhamos até aqui destruindo, alterando e construindo tradições, sem o menor critério, apenas por fetiche e dominação. Esse simples episódio, por exemplo, mostra o quão frágil são os elementos que compõem uma tradição e rasas as bases para sua quebra.


É arriscado sair afirmando serem raros os ativistas que se apresentam coerentes, que outros tantos saem por aí vestidos apenas de meia causa e que poucos sãos os que realmente se importam com a manutenção da tradição na cidade. Também seria cruel dizer que todo o resto, como eu, utiliza a questão apenas como tribuna, palco ou vitrine.



Portanto, me encantam muito mais as perguntas do que as respostas!

sábado, 10 de maio de 2014

O discurso de Pepe Mujica na ONU

"Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.
 
Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de intercâmbios funestos, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.
 
Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz — por que, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.
 
Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.
Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.
 
Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.
 
Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.
 
Carrego o dever de lutar por pátria para todos. Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferências e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.
 
A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes. O combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade.
Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão.
 
O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.
 
Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.
Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.
 
O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.
Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.
 
Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.
 
Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.
 
A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas férias. Tudo, tudo é negócio.
 
Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por vezes, conduzem a frustrações e mais.
 
O homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso código genético.
 
Hoje é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muitos poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.
 
Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela água e contra os desertos.
Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especulação. Mobilizar as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.
 
Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fórums e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões…
 
Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos? Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas requeririam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.
 
Obviamente, não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa de todo. Por último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos “reclamáveis”, que vão plantear um comércio interno livre, mas que, no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.
 
Continuarão as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.
 
Por que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegano a nossos limites biológicos.
 
Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.
A cobiça, tão negatica e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso.
 
A uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando.
 
Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de que é um conquistador antropológico.
 
Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie. Aclaremos: o que é “tudo”, essa palavra simples, menos opinável e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.
 
Não foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.
Seja o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas frequentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se distância do homem da rua.
 
Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os gobernos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.
 
A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra cuando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.
 
Ouçam bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação cobre apenas a quinta parte da investigação militar.
 
Este processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que não temos. Aí haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.
 
As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.
Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.
 
Amigos, creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chovinista das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.
A ONU, nossa ONU, enlanguece, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz em todos os países da América Latina. E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.
 
Até que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.
 
Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização.
Há poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.
 
Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela nos governe. Há mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é capaz de transformar o deserto em verde.
 
O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la bem. É possível arrancar tranquilamente toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.
 
Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.
 
Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências.
 
Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso “nós”.

Obrigado! "

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Fórum de Cultura inicia cadastramento de artistas, produtores e instituições - em São Roque/SP

Hoje (03/02), às 19h, no CEC Brasital, o Fórum Permanente de Cultura dará início ao cadastramento de artistas, produtores, instituições e comunidades tradicionais. O objetivo é mapear a produção cultural na cidade e os atores envolvidos no processo para pautar como será aplicada a verba do Fundo Municipal de Cultura nos próximos anos, bem como, subsidiar a construção do Plano Municipal de Cultura.

A ferramenta utilizada pelos membros do Fórum será o SNIIC – Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais – base de dados proposta pelo Ministério da Cultura. Os interessados podem acessar o site http://sniic.cultura.gov.br/ para obter mais informações, bem como, fazer sua inscrição por conta própria.



Participe e colabore na construção da Política Pública de Cultura da sua cidade!

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Espaço Cultural apresenta música e artes plásticas nesta sexta-feira


Nesta sexta-feira, às 20h, o Espaço Cultural do São Roque Clube apresenta o show “Tua Obra, Teu Pão”, do compositor são-roquense Edson D’aísa. O evento conta ainda com a exposição das obras do artista plástico Toco Dias.

O show musical “Tua Obra, Teu Pão” trata da vida e obra do principal artista da história da cidade: Darcy Penteado – artista plástico aclamado pela crítica especializada, reconhecido em todo o mundo por sua ousadia e talento.

As canções do espetáculo são precedidas por textos poéticos e compreendem diversos ritmos (samba, bossa nova, blues, valsa, entre outros). Um repertório intimista, que não segue uma cronologia lírica ou musical, apresentando todas as fases de Darcy Penteado, como artista e ser humano. Destaque para a participação dos músicos Matheus Pezzota (direção musical e violão) e Paulo Mantovani (clarinete), os quais criam a cama sonora perfeita para a voz de Edson D'aísa.

Além de ser o compositor do Hino Oficial de São Roque, Edson D’aísa destaca-se como produtor cultural na cidade, promovendo inúmeros eventos. Como músico, apresentou-se ao lado do violeiro Paulo Freire e do compositor Paulo Cesar Pinheiro. Edson teve seu trabalho premiado no Mapa Cultural Paulista (em 2002) na modalidade Composição Musical, participou de vários festivais de música pelo país, sendo contemplado ainda no edital de concursos da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, com o projeto “Darcy Penteado na Canção”. Em agosto de 2007, lançou o CD “Todos os cantos do Vale”, com participações mais do que especiais dos cantores Lula Barbosa e João Bid. Militante na área cultural, Edson também é Presidente do Conselho Municipal de Cultura e membro do Fórum Permanente de Cultura de São Roque.

A arte de Toco Dias

Toco Dias, um amante das artes por natureza, nascido em Votorantim, apresenta seu trabalho diferenciado nesta edição do Espaço Cultural. Após anos de experiência no mercado de publicidade e marketing, em 2010 passou a dar novas formas ao seu lado profissional e artístico, dedicando-se à escultura.

Modelar, esculpir, desbastar o tempo sem deixar escapar nada a seu redor. Este tem sido o seu caminho desde então, aprimorando seu ofício em pesquisas, viagens ou mesmo em contato com outras culturas. Seu estilo é a escultura figurativa que se revela nos rostos anônimos, na figura paterna, nos anciãos, na beleza e alma feminina. Vale a pena conferir!
 

Serviço
Espaço Cultural São Roque Clube
Data: 01/11/2013
Hora: 20h
Entrada: Sócios – gratuita / Não Sócios – R$15,00
Informações: (11) 4712.2046

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Confira na íntegra o discurso da Presidente Dilma Roussef na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas - ONU

Discurso proferido em Setembro de 2013
 

 
"Embaixador John Ashe, Presidente da 68ª Assembleia-Geral das Nações Unidas,
Senhor Ban Ki-moon, Secretário-Geral das Nações Unidas,
Excelentíssimos Senhores Chefes de Estado e de Governo,
Senhoras e Senhores,
 
Permitam-me uma primeira palavra para expressar minha satisfação em ver um ilustre representante de Antígua e Barbuda – país que integra o Caribe tão querido no Brasil e em nossa região – à frente dos trabalhos desta Sessão da Assembleia-Geral.
 
Conte, Excelência, com o apoio permanente de meu Governo.
 
Permitam-me também, já no início da minha intervenção, expressar o repúdio do governo e do povo brasileiro ao atentado terrorista ocorrido em Nairóbi. Expresso as nossas condolências e a nossa solidariedade às famílias das vítimas, ao povo e ao governo do Quênia.
 
O terrorismo, onde quer que ocorra e venha de onde vier, merecerá sempre nossa condenação inequívoca e nossa firme determinação em combatê-lo. Jamais transigiremos com a barbárie.
Senhor Presidente,
 
Quero trazer à consideração das delegações uma questão a qual atribuo a maior relevância e gravidade.
 
Recentes revelações sobre as atividades de uma rede global de espionagem eletrônica provocaram indignação e repúdio em amplos setores da opinião pública mundial.
 
No Brasil, a situação foi ainda mais grave, pois aparecemos como alvo dessa intrusão. Dados pessoais de cidadãos foram indiscriminadamente objeto de interceptação. Informações empresariais – muitas vezes, de alto valor econômico e mesmo estratégico - estiveram na mira da espionagem. Também representações diplomáticas brasileiras, entre elas a Missão Permanente junto às Nações Unidas e a própria Presidência da República tiveram suas comunicações interceptadas.
 
Imiscuir-se dessa forma na vida de outros países fere o Direito Internacional e afronta os princípios que devem reger as relações entre eles, sobretudo, entre nações amigas. Jamais pode uma soberania firmar-se em detrimento de outra soberania. Jamais pode o direito à segurança dos cidadãos de um país ser garantido mediante a violação de direitos humanos e civis fundamentais dos cidadãos de outro país.
 
Pior ainda quando empresas privadas estão sustentando essa espionagem.
 
Não se sustentam argumentos de que a interceptação ilegal de informações e dados destina-se a proteger as nações contra o terrorismo.
 
O Brasil, senhor presidente, sabe proteger-se. Repudia, combate e não dá abrigo a grupos terroristas.
 
Somos um país democrático, cercado de países democráticos, pacíficos e respeitosos do Direito Internacional. Vivemos em paz com os nossos vizinhos há mais de 140 anos.
Como tantos outros latino-americanos, lutei contra o arbítrio e a censura e não posso deixar de defender de modo intransigente o direito à privacidade dos indivíduos e a soberania de meu país. Sem ele – direito à privacidade - não há verdadeira liberdade de expressão e opinião e, portanto, não há efetiva democracia. Sem respeito à soberania, não há base para o relacionamento entre as nações.
 
Estamos, senhor presidente, diante de um caso grave de violação dos direitos humanos e das liberdades civis; da invasão e captura de informações sigilosas relativas as atividades empresariais e, sobretudo, de desrespeito à soberania nacional do meu país.
Fizemos saber ao governo norte-americano nosso protesto, exigindo explicações, desculpas e garantias de que tais procedimentos não se repetirão.
 
Governos e sociedades amigas, que buscam consolidar uma parceria efetivamente estratégica, como é o nosso caso, não podem permitir que ações ilegais, recorrentes, tenham curso como se fossem normais. Elas são inadmissíveis.
 
O Brasil, senhor presidente, redobrará os esforços para dotar-se de legislação, tecnologias e mecanismos que nos protejam da interceptação ilegal de comunicações e dados.
 
Meu governo fará tudo que estiver a seu alcance para defender os direitos humanos de todos os brasileiros e de todos os cidadãos do mundo e proteger os frutos da engenhosidade de nossos trabalhadores e de nossas empresas.
 
O problema, porém, transcende o relacionamento bilateral de dois países. Afeta a própria comunidade internacional e dela exige resposta. As tecnologias de telecomunicação e informação não podem ser o novo campo de batalha entre os Estados. Este é o momento de criarmos as condições para evitar que o espaço cibernético seja instrumentalizado como arma de guerra, por meio da espionagem, da sabotagem, dos ataques contra sistemas e
infraestrutura de outros países.
 
A ONU deve desempenhar um papel de liderança no esforço de regular o comportamento dos Estados frente a essas tecnologias e a importância da internet, dessa rede social, para construção da democracia no mundo.
 
Por essa razão, o Brasil apresentará propostas para o estabelecimento de um marco civil multilateral para a governança e uso da internet e de medidas que garantam uma efetiva proteção dos dados que por ela trafegam.
 
Precisamos estabelecer para a rede mundial mecanismos multilaterais:
 
1 - Da liberdade de expressão, privacidade do indivíduo e respeito aos direitos humanos.
 
2 - Da Governança democrática, multilateral e aberta, exercida com transparência, estimulando a criação coletiva e a participação da sociedade, dos governos e do setor privado.
 
3 - Da universalidade que assegura o desenvolvimento social e humano e a construção de sociedades inclusivas e não discriminatórias.
 
4 - Da diversidade cultural, sem imposição de crenças, costumes e valores.
 
5 - Da neutralidade da rede, ao respeitar apenas critérios técnicos e éticos, tornando inadmissível restrições por motivos políticos, comerciais, religiosos ou de qualquer outra natureza.
 
O aproveitamento do pleno potencial da internet passa, assim, por uma regulação responsável, que garanta ao mesmo tempo liberdade de expressão, segurança e respeito aos direitos humanos.
 
Senhor presidente, senhoras e senhores,
 
Não poderia ser mais oportuna a escolha da agenda de desenvolvimento pós-2015 como tema desta Sessão da Assembleia-Geral.
 
O combate à pobreza, à fome e à desigualdade constitui o maior desafio de nosso tempo.
Por isso, adotamos no Brasil um modelo econômico com inclusão social, que se assenta na geração de empregos, no fortalecimento da agricultura familiar, na ampliação do crédito, na valorização do salário e na construção de uma vasta rede de proteção social, particularmente por meio do nosso programa Bolsa Família.
 
Além das conquistas anteriores, retiramos da extrema pobreza, com o Plano Brasil sem Miséria, 22 milhões de brasileiros, em apenas dois anos.
 
Reduzimos de forma drástica a mortalidade infantil. Relatório recente do UNICEF aponta o Brasil como país que promoveu uma das maiores quedas deste indicador em todo o mundo.
 
As crianças são prioridade para o Brasil. Isso se traduz no compromisso com a educação. Somos o país que mais aumentou o investimento público no setor educacional, segundo o ultimo relatório da OCDE. Agora vinculamos, por lei, 75% de todos os royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde.
 
Senhor presidente,
 
No debate sobre a Agenda de Desenvolvimento pós-2015 devemos ter como eixo os resultados da Rio+20.
 
O grande passo que demos no Rio de Janeiro foi colocar a pobreza no centro da agenda do desenvolvimento sustentável. A pobreza, senhor presidente, não é um problema exclusivo dos países em desenvolvimento, e a proteção ambiental não é uma meta apenas para quando a pobreza estiver superada.
 
O sentido da agenda pós-2015 é a construção de um mundo no qual seja possível crescer, incluir, conservar e proteger.
 
Ao promover, senhor presidente, a ascensão social e superar a extrema pobreza, como estamos fazendo, nós criamos um imenso contingente de cidadãos com melhores condições de vida, maior acesso à informação e mais consciência de seus direitos.
Um cidadão com novas esperanças, novos desejos e novas demandas.
 
As manifestações de junho, em meu país, são parte indissociável do nosso processo de construção da democracia e de mudança social.
 
O meu governo não as reprimiu, pelo contrário, ouviu e compreendeu a voz das ruas. Ouvimos e compreendemos porque nós viemos das ruas.
 
Nós nos formamos no cotidiano das grandes lutas do Brasil. A rua é o nosso chão, a nossa base.
 
Os manifestantes não pediram a volta ao passado. Os manifestantes pediram sim o avanço para um futuro de mais direitos, mais participação e mais conquistas sociais.
 
No Brasil, foi nessa década, que houve a maior redução de desigualdade dos últimos 50 anos. Foi esta década que criamos um sistema de proteção social que nos permitiu agora praticamente superar a extrema pobreza.
 
Sabemos que democracia gera mais desejo de democracia. Inclusão social provoca cobrança de mais inclusão social. Qualidade de vida desperta anseio por mais qualidade de vida.
 
Para nós, todos os avanços conquistados são sempre só um começo. Nossa estratégia de desenvolvimento exige mais, tal como querem todos os brasileiros e as brasileiras.
 
Por isso, não basta ouvir, é necessário fazer. Transformar essa extraordinária energia das manifestações em realizações para todos.
 
Por isso, lancei cinco grandes pactos: o pacto pelo Combate à Corrupção e pela Reforma Política; o pacto pela Mobilidade Urbana, pela melhoria do transporte público e por uma reforma urbana; o pacto pela Educação, nosso grande passaporte para o futuro, com o auxílio dos royalties e do fundo social do petróleo; o pacto pela Saúde, o qual prevê o envio de médicos para atender e salvar as vidas dos brasileiros que vivem nos rincões mais remotos e pobres do país; e o pacto pela Responsabilidade Fiscal, para garantir a viabilidade dessa nova etapa.
 
Senhoras e Senhores,
 
Passada a fase mais aguda da crise, a situação da economia mundial ainda continua frágil, com níveis de desemprego inaceitáveis.
 
Os dados da OIT indicam a existência de mais de 200 milhões de desempregados em todo o mundo.
 
Esse fenômeno afeta as populações de países desenvolvidos e em desenvolvimento.
 
Este é o momento adequado para reforçar as tendências de crescimento da economia mundial que estão agora dando sinais de recuperação.
 
Os países emergentes, sozinhos, não podem garantir a retomada do crescimento global. Mais do que nunca, é preciso uma ação coordenada para reduzir o desemprego e restabelecer o dinamismo do comércio internacional. Estamos todos no mesmo barco.
 
Meu país está recuperando o crescimento apesar do impacto da crise internacional nos últimos anos. Contamos com três importantes elementos: i) o compromisso com políticas macroeconômicas sólidas; ii) a manutenção de exitosas políticas sociais inclusivas; iii) e a adoção de medidas para aumentar nossa produtividade e, portanto, a competitividade do país.
 
Temos compromisso com a estabilidade, com o controle da inflação, com a melhoria da qualidade do gasto público e a manutenção de um bom desempenho fiscal.
Seguimos, senhor presidente, apoiando a reforma do Fundo Monetário Internacional.
 
A governança do fundo deve refletir o peso dos países emergentes e em desenvolvimento na economia mundial. A demora nessa adaptação reduz sua legitimidade e sua eficácia.
Senhoras e senhores, senhor presidente
 
O ano de 2015 marcará o 70º aniversário das Nações Unidas e o 10º da Cúpula Mundial de 2005.
 
Será a ocasião para realizar a reforma urgente que pedimos desde aquela cúpula.
Impõe evitar a derrota coletiva que representaria chegar a 2015 sem um Conselho de Segurança capaz de exercer plenamente suas responsabilidades no mundo de hoje.
É preocupante a limitada representação do Conselho de Segurança da ONU, face os novos desafios do século XXI.
 
Exemplos disso são a grande dificuldade de oferecer solução para o conflito sírio e a paralisia no tratamento da questão israelo-palestina.
Em importantes temas, a recorrente polarização entre os membros permanentes gera imobilismo perigoso.
 
Urge dotar o Conselho de vozes ao mesmo tempo independentes e construtivas. Somente a ampliação do número de membros permanentes e não permanentes, e a inclusão de países em desenvolvimento em ambas as categorias, permitirá sanar o atual déficit de representatividade e legitimidade do Conselho.
 
Senhor presidente,
 
O Debate Geral oferece a oportunidade para reiterar os princípios fundamentais que orientam a política externa do meu país e nossa posição em temas candentes da realidade e da atualidade internacional. Guiamo-nos pela defesa de um mundo multilateral, regido pelo Direito Internacional, pela primazia da solução pacífica dos conflitos e pela busca de uma ordem solidária e justa – econômica e socialmente.
 
A crise na Síria comove e provoca indignação. Dois anos e meio de perdas de vidas e destruição causaram o maior desastre humanitário deste século.
 
O Brasil, que tem na descendência síria um importante componente de nossa nacionalidade, está profundamente envolvido com este drama.
 
É preciso impedir a morte de inocentes, crianças, homens, mulheres e idosos. É preciso calar a voz das armas – convencionais ou químicas, do governo ou dos rebeldes.
 
Não há saída militar. A única solução é a negociação, o diálogo, o entendimento.
 
Foi importante a decisão da Síria de aceder à Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas e aplicá-la imediatamente.
 
A medida é decisiva para superar o conflito e contribui para um mundo livre dessas armas. Seu uso, reitero, é hediondo e inadmissível em qualquer situação.
 
Por isso, apoiamos o acordo obtido entre os Estados Unidos e a Rússia para a eliminação das armas químicas sírias. Cabe ao Governo sírio cumpri-lo integralmente, de boa-fé e com ânimo cooperativo.
 
Em qualquer hipótese, repudiamos intervenções unilaterais ao arrepio do Direito Internacional, sem autorização do Conselho de Segurança. Isto só agravaria a instabilidade política da região e aumentaria o sofrimento humano.
 
Da mesma forma, a paz duradoura entre Israel e Palestina assume nova urgência diante das transformações por que passa o Oriente Médio.
 
É chegada a hora de se atender às legítimas aspirações palestinas por um Estado independente e soberano.
 
É também chegada a hora de transformar em realidade o amplo consenso internacional em favor de uma solução de dois Estados.
 
As atuais tratativas entre israelenses e palestinos devem gerar resultados práticos e significativos na direção de um acordo.
 
Senhor presidente, senhoras e senhores,
 
A história do século XX mostra que o abandono do multilateralismo é o prelúdio de guerras, com seu rastro de miséria humana e devastação.
 
Mostra também que a promoção do multilateralismo rende frutos nos planos ético, político e institucional. Renovo, assim, o apelo em prol de uma ampla e vigorosa conjunção de vontades políticas que sustente e revigore o sistema multilateral, que tem nas Nações Unidas seu principal pilar.
 
Em seu nascimento, reuniram-se as esperanças de que a humanidade poderia superar as feridas da Segunda Guerra Mundial.
 
De que seria possível reconstruir, dos destroços e do morticínio, um mundo novo de liberdade, de solidariedade e prosperidade.
 
Temos todos a responsabilidade de não deixar morrer essa esperança tão generosa e tão fecunda.
 
Muito obrigada, senhores e senhoras!"
 
 
Dilma Roussef